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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Nova espécie de primata é descoberta na Amazônia


BELÉM, PA – Uma nova espécie de sagüi – primata de pequeno porte – é identificada na Amazônia. É o Saguinus fuscicollis mura. Também denominada de sauim-dos-índios-mura pelos cientistas, a espécie foi descrita recentemente e é endêmica de uma área de floresta de terra firme situada entre os rios Madeira e Purus, no Amazonas. A descoberta ocorreu durante expedição promovida pela Rede Geoma, em 2007, e se constitui em mais uma peça ao intrincado quebra-cabeças sobre a evolução da diversidade biológica da maior floresta tropical do planeta.
Animado com a descoberta, o pesquisador José de Sousa e Silva Júnior, do Museu Emílio Goeldi, de Belém, espera encontrar ainda novas espécies de primatas nessa região. Silva Júnior é responsável pela descrição da nova espécie, cujo resultado do trabalho foi publicado no International Journal of Primatology, em junho passado.
O Saguinus fuscicollis mura pesa aproximadamente 300 gramas e mede pouco mais de 50 centímetros de comprimento, incluindo a cauda. A espécie foi encontrada no extremo norte da região situada entre os rios Madeira e Purus, ao sul do rio Amazonas. O pequeno primata apresenta pelagem marrom escura e sela mosqueada de ocre e marrom quase negro. A cauda é negra e o ventre marrom avermelhado. “A espécie não apresenta sobrancelha branca, característica observada em alguns táxons do grupo, como o S. f. primitivus e o S. f. weddelli”, observa o pesquisador Fabio Röhe, da Wildlife Conservation Society (WCS), outro cientista envolvido na descoberta. “Eles ocorrem em grupos pequenos, em torno de cinco a seis indivíduos”, explica.
A espécie pertence ao grupo dos sagüis, macacos de pequeno porte, com unhas modificadas em forma de garras, que se alimentam de frutos e insetos. Outra característica interessante dessa família é que as fêmeas geralmente têm gêmeos. “O gênero Saguinus é o que apresenta maior número de espécies na região Neotropical. Ele ocorre em toda a Amazônia, exceto entre os rios Tapajós e Xingu”, afirma José de Sousa e Silva Júnior. Segundo o pesquisador, os primatas da Amazônia apresentam distribuição delimitada pelos rios. “Ao longo do tempo, os grupos foram se diferenciando e novas espécies foram surgindo”.
No caso do S. f. mura as diferenças externas em relação às espécies irmãs, como S. f. weddelli e S. f. avilapiresi, que habitam regiões próximas, facilitaram o trabalho dos cientistas, que compararam suas medidas cranianas e características de pelagem com outras espécies do mesmo grupo. “A primeira característica que distingue os primatas é a cor da pelagem. É assim que eles começam a se diferenciar”, explica Silva Júnior. “Outras espécies apresentam diferenças mais sutis, o que requer a utilização de ferramentas mais sofisticadas, como a Biologia Molecular, que permite analisar as relações de parentesco através da análise do DNA”.
Quebra-cabeça

Fabio Röhe explica que a descrição de novas espécies de primatas na Amazônia é relativamente freqüente, com taxa média de uma nova espécie descoberta por ano, desde a década de 80. “Acessar áreas nunca antes amostradas geralmente traz novas espécies ao grupo de primatas. A principal lição a ser aprendida com a nova descoberta é que, a exemplo do que pode ter ocorrido na Mata Atlântica, várias espécies podem ser extintas antes mesmo de serem conhecidas pela ciência”.
A descoberta chama a atenção também para o desconhecimento taxonômico e geográfico desse grupo biológico. “O grupo de espécies ao qual pertence S. f. mura é pouco estudado e ainda apresenta muitas lacunas”, afirma Röhe. “Também mostra o nosso desconhecimento sobre o bioma amazônico, já que essa nova espécie foi coletada a menos de 100 quilômetros de Manaus”.
“O nosso trabalho na Amazônia é como levantar peças de um imenso quebra-cabeça”, define o pesquisador. Ele está descrevendo outras espécies de primatas encontradas em Rondônia: duas do gênero Mico, que habitam as margens esquerda (Mico rondoni) e direita (M. ssp.) do rio Ji-Paraná. Uma terceira espécie, do mesmo gênero, foi encontrada no Vale do Guaporé. A descoberta ainda está sendo investigada pelo cientista.
A espécie recém descoberta no Amazonas já enfrenta uma série de ameaças à sua sobrevivência.  A primeira delas é a destruição da floresta, em virtude da construção do gasoduto Urucu-Porto Velho e das usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira. A segunda ameaça é a pavimentação da rodovia BR-319, no trecho entre Manaus e Porto Velho. Essas obras devem afetar consideravelmente o equilíbrio dos ecossistemas da região.
Para Fábio Röhe, as ameaças vão aumentar se “o governo brasileiro insistir em negligenciar a conservação da biodiversidade e dos sistemas naturais”.  Segundo o pesquisador, o Brasil é, talvez, o único país do mundo com condições ambientais para promover um desenvolvimento diferenciado, se for capaz de respeitar organismos que custaram milhões de anos para se tornar criaturas fascinantes e fundamentais para a sobrevivência saudável do planeta.  Os cientistas acreditam que os sauins-dos-índios-mura, futuramente confinados a pequenas manchas florestais, serão extintos nos próximos 50 anos.


Agência Amazônia


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